terça-feira, 16 de setembro de 2008

A PALHAÇADA PODE CONTINUAR...


Rebaixamento e "virada de mesa": o circo do nosso futebol pode continuar




Parece mentira que passados 5 anos a fórmula do Campeonato Brasileiro de futebol (Série A) continua a mesma e os critérios de acesso e descenso também, desde a implantação do sistema de pontos corridos em 2003. Quando imaginamos que pelo menos nesse quesito o nosso esporte pode se moralizar por essas bandas, eis que surge uma notícia que derruba qualquer possibilidade de crédito perante as “autoridades” que conduzem o nosso futebol no país. Hoje o meu texto é puramente opinativo, com um breve histórico do fato em si da competição, onde faço valer a essência de um blog, que é expor as opiniões de(os) seu(s) autor(es). Vejam abaixo a reportagem do portal “Futebol Interior” veiculada em 15/09/2008 com o presidente da FBA (Futebol Brasil Associados), a entidade que conduz a Série B do Brasileirão, José Neves:



“Presidente da FBA apoia virada de mesa na Série C

O presidente da Futebol Brasil Associados (FBA), entidade gestora do Campeonato Brasileiro da Série B, José Neves, se mostrou favorável ao Santa Cruz e ao Remo, que pretendem acionar o Superior Tribunal de Justiça Desportiva, para não haver a criação da Série D.


Neves afirmou que a FBA estará do lado dos times filiados, Santa Cruz e Remo, ‘onde eles estiverem’ e se for para entrar na Justiça, ele garantiu que ‘a entidade estará com eles’.


Questionado se o coração de torcedor (torce pelo Santa Cruz e já foi até presidente do clube) não estava falando mais alto, Neves afirmou que está falando como torcedor, pessoa física e vai defender os clubes filiados até o fim.”



É de enojar qualquer pessoa de bom senso que tenha a intenção de acompanhar o seu time do coração em uma das Séries (A, B, C e D) do país. Será que times como o Santa Cruz e o Remo, apenas por terem alguma tradição no esporte, não podem ser “punidos” com o rebaixamento pela incompetência de seus administradores, comissão técnica e jogadores? Na Itália Milan e Juventus já amargaram a Segundona. Na Alemanha o Borusia Mönchengladbach e o Kaiserslautern perambulam ou já perambularam pela 2.Bundesliga. Na França os tradicionais Nantes e Saint Etienne também caíram e conseguiram retornar à elite com seus próprios passos. Na Inglaterra o Nottingham Forest já foi campeão europeu de futebol 2 vezes e passou algumas temporadas na pífia 3ª divisão (já comentado neste blog). Será que no Brasil a impunidade tão freqüente aos delinqüentes das ruas e de Brasília também tem que ser seguida diante dos criminosos da bola?

Infelizmente essa não seria a primeira, nem provavelmente será a última vez que alguém tem a idéia medíocre de promover uma “virada de mesa” no nosso combalido futebol caso realmente venha a acontecer. Essas atitudes jocosas já ocorrem desde a década de 90, quando a CBF promoveu seguidos absurdos à prática do futebol decente. Vamos a um breve relato do que aconteceu nesse nosso passado negro.

A bagunça começou em 1993, quando o Grêmio/RS, ex-campeão mundial de futebol, havia sido rebaixado para a segunda divisão do Brasileirão no ano de 1991 e havia disputado a Segundona de 1992. Estavam previstos pelo regulamento o rebaixamento dos dois últimos colocados e a ascensão dos dois melhores times da Série B como seria a continuação da normalidade. Entretanto, temendo que a incompetência tomasse conta do Olímpico a CBF, certamente pressionada pelo Clube dos 13, decidiu fazer sua primeira palhaç..., digo intervenção no regulamento do torneio. Quando antes seriam 2 clubes ascendentes da divisão inferior, a partir de então seriam os 12 melhores colocados que se dividiriam em 4 grupos na competição de 1993. E a brincadeira de mau gosto deu resultado, pois a participação do tricolor gaúcho foi pífia - apenas o 9º lugar. Detalhes: não houve rebaixamento em 1992 e, no ano seguinte, os 4 últimos dos grupos C e D, COM EXCEÇÃO DO GRÊMIO, é que cairiam para a segunda divisão. Ou seja: o campeão e o vice da Série B poderiam ser novamente rebaixados, mas o 9º colocado não. Patético!

Três anos depois a segunda presepada da entidade na principal competição de futebol do país. No campeonato disputado por 24 clubes em 1996, ficaram com as duas últimas posições previstas pelo regulamento para o rebaixamento o tradicional Fluminense/RJ, ex-campeão brasileiro, e o Bragantino/SP. A Confederação, novamente consternada com a situação de um histórico clube brasileiro, resolveu mais uma vez passar a mão na cabeça dos incompetentes e decidiu pela mais lembrada e ridícula “virada de mesa” da história da competição: não rebaixou ambos os clubes e União São João/SP e América/RN, advindos da Série B, se juntaram e jogaram a competição de 1997 com 26 participantes. Digno da cara de pau dos dirigentes tricolores de se vangloriarem com o estouro de champagne comemorando o "retorno". Outro detalhe: em 1997 o mesmo Fluminense foi vergonhosamente rebaixado, contrariando o ditado que diz que “um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”. Pior: caiu três vezes! Em 1998 o clube carioca conseguiu ser rebaixado à terceira divisão. Ao menos uma vez fez-se justiça no futebol.

Quando o festival de marmotas parecia não ter mais espaço para a “criatividade” dos cartolas do nosso futebol, surge em 1999 a “brilhante” idéia de tornar critério de rebaixamento para a Segundona do ano seguinte a média ponderada de pontos obtidos pelos clubes na atual edição e no campeonato de 1998. No regulamento constava que as 4 equipes com as piores médias de pontos nas duas competições seriam relegadas. Apesar da idéia esdrúxula tudo se encaminhava dentro das regras, até que surge o caso Sandro Hiroshi no São Paulo/SP. O jogador seria um “gato” (idade adulterada em benefício próprio) segundo o STJD, que puniu o clube paulistano com a perda dos pontos dos jogos contra Botafogo/RJ e Internacional/RS. Também tudo dentro da razoável normalidade até o momento, mas eis que toda essa lambança alterou profundamente a tabela de classificação do Brasileirão no quesito rebaixamento. Antes do veredicto do Tribunal os 4 times relegados pela famigerada média seriam Botafogo/SP, Juventude/RS, Paraná/PR e BOTAFOGO/RJ nesta ordem crescente. Após a decisão da Justiça Desportiva ocorreu a alteração do Gama/DF no lugar do alvinegro carioca. Dessa forma cairiam para a Série B de 2000 Botafogo/SP, Juventude/RS, Paraná/PR e Gama/DF. A equipe candanga não aceitou o rebaixamento e recorreu à Justiça Comum contra o rebaixamento. A ação judicial arrastou-se por muitos meses e a CBF viu-se impedida de organizar a competição de 2000, outorgando o poder de organização ao Clube dos 13.

Aí já viu, né?! Onde os “13 que são 20” põem as mãos fada à esculhambação. Resultado: o estúpido número recorde de 116 participantes divididos em 3 módulos no ano 2000 disputaram o título da Copa João Havelange. Mais outras notas: foram “agraciados” com a volta à elite Fluminense/RJ, Bahia/BA, América/MG e Juventude/RS, que estavam nas divisões inferiores; a decisão do título foi disputada no ano de 2001 após o imbróglio ocorrido em São Januário quando da queda do alambrado que feriu dezenas de torcedores; o vice-campeão deste ano (o São Caetano/SP) veio do Módulo Amarelo (equivalente à Segunda Divisão); e mais uma vez não houve descenso para a segunda divisão.

Desde então mais nenhum problema com rebaixamento ou acesso foi verificado nas competições regidas pela CBF. Times tradicionais como Grêmio/RS, Palmeiras/SP, Botafogo/RJ, Corinthians/SP e Atlético/MG já percorreram os corredores da Série B, conseguiram voltar com dignidade dentro de campo e souberam dar a volta por cima (o Corinthians está prestes a fazer isso na atual temporada).

Resta saber o que o futebol brasileiro ganha com tamanhas atrocidades contra o bom senso e a verdadeira justiça do futebol. Clamam tanto por organização e moralização do nosso Campeonato e fazem todo tipo de manobra para adequar interesses particulares muitas vezes escusos. E que o STJD tenha o discernimento de separar tradição de incompetência em 2009. Santa Cruz/PE e Remo/PA têm todas as condições de retornarem para os lugares que lhes são de merecimento e não precisam disso. O espetáculo no circo do futebol brasileiro tem que continuar! Mas que me desculpem os verdadeiros palhaços pela ofensa!




Foto 1: CliCRBS
Foto 2: Blog ArquibarFC

2 comentários:

Operações disse...

As viradas de mesa começaram bem antes do Grêmio, e tua informação sobre a promoção de 1992 está incorreta. Detalhes maiores aqui:

http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&uf=1&local=1&template=3948.dwt&section=Blogs&post=73120&blog=158&coldir=1&topo=3994.dwt

Alexandre Perin disse...

http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&uf=1&local=1&template=3948.dwt&section=Blogs&post=73120&blog=158&coldir=1&topo=3994.dwt